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A ETERNIDADE E UM DIA Edson Bueno
 


ESCORREGANDO NA LINGUAGEM

 

Aqui quem fala é um artista. Nosso maior inimigo é o tal do clichê. Todos corremos dele como o diabo da cruz, mas vez ou outra temos que nos curvar ao paradoxo que é a atração irresistível que ele às vezes nos provoca. É a chamada sedução pelo óbvio, não há como escapar. Aqui é o caso. A melhor forma de comentar o filme TEMPOS DE PAZ, de Daniel Filho é utilizando um clichê batidíssimo: é teatro filmado, que reafirma todos os defeitos da transposição pouco elaborada e ainda, por força da linguagem, esconde e dilui o que de melhor a peça original tem. Nesse caso, o equívoco da transposição para o cinema comprometeu até as interpretações dos atores, que na encenação beiravam ao genial.  Certa vez, conversando com um famoso crítico paulista, ele confessou ter restrições (suaves) ao texto de Bosco Brasil, “Novas Diretrizes em Tempo de Paz”, que deu origem ao filme. O, digamos assim, tiro de dramaturgia na terceira parte, acontecia de forma tão abrupta que, psicologicamente, não daria tempo ao antagonista (personagem de Tony Ramos) emocionar-se a ponto de resolver a principal questão do conflito. Concordei, mas também argumentei que o espírito do texto, sua romântica poesia e sua leve queda pelo sentimental, compensavam esse escorregão. E ainda por cima, proporcionavam aos dois únicos atores em cena, dar shows de interpretação. Era pecadinho mais do que perdoável e Dan Stulbach, em especial, era um fenômeno, uma revelação, um acontecimento! E, no meu caso de artista, quem resiste ao personagem, podre de simpático, dizer com lágrimas nos olhos, que o Brasil pós-guerra podia muito bem estar precisando de mão de obra para o campo, mas que ele era um ator e era só o que sabia fazer. Assim que deveria cumprir seu destino. Se esse não era o tiro de dramaturgia, era o golpe baixo e qualquer público com um mínimo de coração e sensibilidade, se curva ao idealismo e entrega a alma ao teatro! Precisamos sim, ouvir testemunhos de gente íntegra e apaixonada. Precisamos acreditar na inocência e na pureza dionisíaca, senão a vida torna-se um lodo, um pântano fedorento e sem fundo. O texto de Bosco Brasil tem esse mérito. Mas o filme... bem, o filme, embora busque com todas as forças essa conexão com o poético, é sempre artificial e esquemático Algumas marcações chegam a doer de tão falsas e teatrais e as inclusões de personagens secundários, ao invés de contribuírem, ainda diluem a trama central, contribuindo negativamente para o resultado enfadonho. É doloroso admitir, mas o elenco de apoio está muito mal. Quanto aos protagonistas, bem, Tony Ramos e Dan Stulbach, que no teatro eram estupendos, oferecem uns tais “overactings”pra ninguém botar defeito. Dan Stulbach ainda alterna empostação com naturalidade, mas o Tony Ramos perde-se completamente na composição. A cena final, quando o personagem derrama algumas lágrimas, é pra se esquecer. Incrível ironia, porque era o seu grande momento no espetáculo que assisti no Teatro HSBC. Dava vontade de aplaudir em cena aberta. Direção, trilha sonora e montagem arrastam-se, sem conseguir estabelecer qualquer idéia de ritmo e clímax. Existe uma vontade de contar a história, mas não existe linguagem cinematográfica. É apenas um registro de cenas em movimento. Tudo é abandonado para as palavras, que se no teatro são as rainhas, no cinema perdem feio para a imagem. E o filme não oferece nenhuma imagem ou sequência inspiradora. Uma pena. “Novas Diretrizes Em Tempo de Paz” é um excelente material e daria um excelente filme, mas para isso precisaria ter sua carpintaria teatral totalmente desconstruída e, de uma desconstrução, seja qual fosse, era preciso elaborar um novo roteiro, verdadeiramente cinematográfico, para que dali surgisse um filme de verdade. Ao final percebe-se um desejo sentimental de fazer uma linda homenagem à arte, ao teatro e aos imigrantes fugidos do nazismo, que enriqueceram nossa cultura. Faltou pensar com mais cuidado no cinema. O velho cinema, uma jovem arte de pouco mais de 100 anos, tem casos de equívocos e acertos na filmagem de peças de teatro. Não custava nada curvar-se diante dos acertos para entender os caminhos que levaram roteiristas a reelaborarem estruturas teatrais e delas fazerem belos filmes. AMADEUS, de Peter Shaffer; FROST/NIXON, de Ron Howard; DISQUE M PARA MATAR, de Alfred Hitchcock; BLITHE SPIRIT, de David Lean, TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA, de Arnaldo Jabor, são só alguns bons exemplos.



Escrito por Edson Bueno às 01h19
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A ENTREVISTA

 

Estou em minha casa costurando o conto “Selvageria”, do Nelson Rodrigues, para o ensaio da noite e toca o celular. “Alô”! Do outro lado: “Aqui é ...., sou estudante de teatro da FAP e preciso fazer um trabalho sobre diretores de teatro de Curitiba. O senhor pode me responder cinco perguntinhas? Vai ser rápido”. Eu: “Claro, onde”? Marcamos às 17h30 no Café Express. “Você vai me reconhecer”? Ele: “Reconheço”. Lá estava eu na hora marcada e o rapaz não me reconheceu. Um aceno simpático, meio tímido e ele soube que era eu o entrevistado. Eu tomava um café com leite e mordia um pão de queijo. Ele sentou-se. Puxou um caderno, uma caneta e atacou: “Quantos anos o senhor tem de direção”? Eu: “26”. Tive a impressão de que ele reagiu com uma sobrancelha só, mas foi impressão. “E quais são suas peças mais importantes”? Eu disse umas cinco. Comecei por “New York Por Will Eisner” e cheguei em “Capitu”, quando ele reagiu com a outra sobrancelha e, se não me escapa a percepção, um leve sorriso de canto de boca. “Teria assistido?”,pensei. Sem levantar os olhos e ainda escrevendo ele mandou a terceira: “Qual seu método de trabalho”? Comecei a falar de textos, trabalhos de mesa, pesquisas e tempo para preparação de elenco, mas notei que um certo barroquismo poderia levá-lo a confusões. Os olhos nunca mentem. “Melhor simplificar”, resolvi. Mas quando ainda estava no meio da terceira resposta, ele deu-se por satisfeito, mesmo com a inconclusividade e tacou a quarta pergunta “Como o senhor trabalha os atores”? Lembrei de Hitchcock: “Os atores devem ser tratados como gado”! Não é o meu caso porque eu não sou Hitchcock, mas, antes que ele viesse com a quinta pergunta, antes de eu responder a quarta, fui veloz, respondi quase se vírgulas nem pontos: “No caso de criar um personagem o ator deve entender que seus conteúdos não servem o que serve é a fantasia e a opinião”. Inspirei fundo. Uma pequena pausa para ver se ele reagia com algum músculo. Nada. Limitou-se a anotar. Nem concordou nem duvidou, nem ao menos sugeriu algum desenvolvimento. Eu ainda estava na terceira dentada no pão de queijo e ele satisfeitíssimo com uma frase de efeito. Quinta e última questão: “Quais seus próximos projetos”? “Nelson Rodrigues e Cortazar”, brinquei de ser lacônico. Ele anotou. E eu fiquei esperando qualquer coisa que demonstrasse no aluno um mínimo interesse pela minha humilde pessoa. Um sorriso complacente, um aperto de mão, um comentário por mais idiota que fosse sobre qualquer trabalho meu, afinal já são 70 espetáculos. Quem sabe uma expressão de nojo? Nada. Um suspiro? Nada. Um espirro? Nada. Sem olhar nos meus olhos, ele guardou caderno, caneta e levantou-se. “Meu Deus”, pensei, “Ele não vai nem dizer até logo”! Quase. Disse “está bom, obrigado e tchau”. Virou-se e foi. E eu, com o resto de pão de queijo na mão e o café com leite praticamente completo. Quanto tempo deve ter durado a entrevista? Sei lá, acho que uns 4 minutos. Lembrei de Nelson Rodrigues e dos idiotas da objetividade. Lembrei de Einstein e sua frase famosa: “a imaginação é mais importante do que o conhecimento”. Lembrei da expressão fria, seca, árida, quase morta, estampada nos olhos daquele rapaz. Um estudante de Artes Cênicas! Não sou um memorialista, mas sou um humanista, porque afinal de contas sou um artista de teatro, então lembrei também da emoção que senti, quando ouvi, ao vivo, pela primeira vez, em 1982, a voz da Lala Schneider, chamando meu nome: “Edson Bueno”? Eu quase não consegui responder o “sim”. É, os tempos são outros e hoje em dia um repolho desfolhado, solitário e triste, parado no meio de um palco vazio, vale mais que, por exemplo, “A Casa de Bernarda Alba”, de Lorca. Fazer o quê?



Escrito por Edson Bueno às 01h39
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ALFRED

 

Hoje, dia 13 de agosto, o grande, genial, estupendo, inacreditável, maravilhoso, original, violento, mágico, misterioso e inesquecível ALFRED HITCHCOCK, estaria fazendo aniversário. Leonino, é claro! 110 anos!

 

"Morro de medo de ovos, pior do que morrer de medo, eles me revoltam. Aquela coisa branca arredondada sem nenhum buraco. Você já viu algo mais revoltante de que uma gema de ovo quebrando e derramando seu líquido amarelo? O sangue é alegre, vermelho. Mas a gema do ovo é amarela, revoltante. Eu nunca a provei."



Escrito por Edson Bueno às 06h23
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FROST/NIXON

Frank Langella, um ator estupendo!

 

Ultimamente tenho virado algumas madrugadas. Em outros tempos, quando fazia terapia pra voltar a ser gente ou talvez, pra recuperar uma espécie de humanidade suave, mesmo nas maiores crises, respondia, calmamente, à Ivani, minha terapeuta, que sono nunca me faltou. Chegava a hora de dormir e bastava apagar as luzes e entrar embaixo das cobertas. E a Ivani: “Levanta a mão pro céu, Edson! Levanta a mão pro céu”! Devo dizer que levantava. As coisas mudaram um pouco nos últimos oito ou dez anos. Adoro pensar, pensar, pensar e conversar comigo mesmo (seria sinal de maluquice?), imaginar todo tipo de experiência e refletir sobre o dia anterior. Dá uma preguiça e tanto ter que cerrar os olhos e beijar Morfeu na boca. Quem sai perdendo é o sono. Enfim, em algumas dessas madrugadas arrisco ver um filme na televisão. È fato que odeio televisão, então é preciso ser alguma coisa que me instigue muito. Dia desses acertei em cheio. Assisti “Frost/Nixon”. Pelas coincidências da vida não pude vê-lo no cinema, embora tivesse a impressão de que seria um programa delicioso. Por quê? Talvez influenciado pelos outros. Como “outros” pode-se entender “a imprensa” americana, via internet. O diretor Ron Howard nunca me enganou, mas “Apolo 10” tem seus méritos, que não são poucos. E tudo fica por aí. Mas gratíssima surpresa. Se não é a última bolacha do pacote, é um filme admirável, inclusive pela excelente direção e pelo inteligente uso da câmera. A história original? Nixon aceitou, por gorda quantia em dinheiro, dar uma entrevista para um jornalista (o tal David Frost) mais do que popularesco, sedento por audiência e prestígio. O que poderia ser um belíssimo duelo de espertezas fica comprometido pela realidade. O fato aconteceu mesmo e de toda a história, apenas uma mínima parcela é, realmente interessante no sentido dramático. E que, inclusive, está no trailer. Nixon num arroubo de indignação e lógica autoritária, “explica” ao sujeito que um presidente da república nunca comete um ato ilegal. Qualquer ato de um presidente é sempre legal, mesmo que ilegal. Entenderam? Pois Mussolini deve ter gargalhado nas trevas! Antes disso, tudo cheira a enchimento de lingüiça, mas tem seu charme, digamos assim “político”. Cara de pau como sou, acho que o roteirista poderia permitir-se ousadias de ficcionista e viajar na maionese, aproveitando a deixa pra radicalizar e transformar os dois personagens em símbolos. Não o fez e se a verdade ganhou, embora pequenininha, a ficção perdeu. Mas uma “verdade” talvez nunca seja pequenininha, mesmo que uma só. Sei lá! Por que este texto? Pra exaltar o que “Frost/Nixon” tem de melhor: a interpretação antológica de Frank Langella. Esse sim, vai às alturas! O verdadeiro filme a ser assistido está em seus olhos, seu corpo e suas expressões. É um ator que vai além das palavras e dos fatos. Constrói toda uma verdade alternativa. Pensamos com ele, refletimos sobre a vida e a política com sua alma misteriosa e sem repouso. Tudo em seus olhos e seu tom de voz. Um ator excepcional! “Deveria ter ganho o Oscar”, pensei. Mas aí lembrei que o Sean Penn é quem ganhou por “Milk” e dei o desconto. Fazer o quê quando casa de perfeições e talentos disputarem qualquer coisinha, fuça a fuça? E ainda tinha o Mickey Rourke por “O Lutador”. É, que vá tudo ao “Deus dará”! Enfim, “Frost/Nixon” é excelente cinema e depois de assisti-lo, entre duas e quatro da madrugada, não sobrou espaço em minha cachola para outros pensamentos menores. Até pensei uma versão brasileira tipo RATINHO/COLLOR ou mais ao gosto da nossa politicazinha, GUGU/LULA. Fiquei com medo de vomitar e perder o sono por uma semana inteira, então achei melhor cerrar os olhos e procurar dormir como um anjo em paz, porque no nosso caso seria uma babassão de ovos irritante e todo tipo de sorrisinhos complacentes. Às vezes é melhor não pensar.  Cinema é a maior diversão!



Escrito por Edson Bueno às 01h32
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PRESENTES. UM POUCO DE TUDO.

 

Alguém disse que o tédio, se existe, está dentro da gente, porque a vida é um show de emoções e possibilidades. Chover no molhado, porque é mesmo. Acontece que o “Café Express” na Praça Santos Andrade, tem uma das comidinhas mais deliciosas da cidade. Simples e barata. Uma salada de folhas, mais castanhas, uvas passas, damasco e molho tipo balsâmico, que enche a boca de sabores agridoces. Genial. Claro, comida meio caloricazinha, embora não pareça, mas especial. Quem me apresentou a salada pela primeira vez foi a amiga Eloise Grein e assumi minha paixão pelo prato. Ontem, terça-feira, almoçamos lá (eu e a Eloise), para um programa de tarde que foi o oposto do tédio e o paradoxo cultural, incluindo-se aí a comida. Meu aniversário é só na próxima terça, mas ela resolveu antecipar a comemoração e deu-me dois, melhor três, presentes. A edição “Nova Iorque – A Vida Na Grande Cidade”, de Will Eisner, editada pela Companhia das Letras e que é uma compilação de diversas graphic novels do Eisner. Delas nasceu meu espetáculo fetiche “New York Por Will Eisner”, em 1990.  Tenho os originais, mas essa compilação é charmosa e traz algumas novas histórias. E quem resiste à:

 

“Por mais de oitenta anos o edifício firmou-se no cruzamento de duas grandes avenidas. Era um marco cujas paredes resistiam à chuva de lágrimas e ao golpe das risadas”.

 

Como nós e a nossa vida. Inesquecível Eisner! Arqueólogo dos sentimentos.

Pois a Eloise caprichou na simpatia e ainda me presenteou com “A Maleta do Meu Pai”, três discursos do Orhan Parnuk, incluindo o da cerimônia do prêmio Nobel, claro, também da Cia. Das Letras, que nunca nega fogo:

 

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é...”

 

Não vai demorar muito, mas tenho a sensação de que, quando ler, vou me derramar em encantamentos. Já sou um apaixonado pelas palavras e quando elas partem de uma cabeça lúcida e poética, são irresistíveis!

Pois bem, daí, o programa seguiu para um cineminha “de arte”. Mais ou menos. O endereço é o Shopping Batel, residência das salas de cinema mais charmosas de Curitiba. Pena que pouco frequentadas. A programação é seletíssima e o vazio de sua audiência dá a medida exata do nível de exigência cultural desta cidade de um milhão e oitocentos mil habitantes! É de doer o coração, mas enfim... que fazer? O filme escolhido foi “A Ilha da Morte”, que eu achava que era cubano, mas descobrimos que era filme brasileiro filmado e falado em cubano. Nenhum problema. A minha aposta é de que era ruim, enquanto a Eloise estava mais otimista. Estávamos lá, na sala 2, eu, a Eloise e mais um casal de namorados. O filme era bem, digamos assim, “bonitinho”. Uma história de amor ao cinema, vivida por um jovem mais do que cabeça oca, numa Cuba pré-revolução. Quem dá as cartas é a ingenuidade e quase rola uma espécie de “Cinema Paradiso” tão sentimental quanto, mas menos radical do que poderia, já que o pano de fundo é de uma radicalidade histórica. Os atores são ótimos, embora um pouco caricatos, como pede o filme. Não dá pra dizer que é modificador como Cuba e qualquer bom cinema, mas tem seus méritos fofos, embora saia do nada pra chegar a lugar nenhum.

Pra terminar a tarde “de presente”, um capuccino com aroma de avelã no Lucca Café, lá mesmo no Batel. A Eloise ainda tentou me seduzir oferecendo um sedutor macarron (Não sabe o que é? Vai no google e descubra, mas eu garanto que o melhor é saboreá-lo), mas o meu objetivo é não engolir doces durante esta semana, por isso fiquei só com o capuccino. Delicioso. Mais delicioso foi o papo de quase cinco horas, permeado por idéias, pensamentos, sabores, fofocas, confissões e piadas. Uma tarde/presente, embalada pelo carinho e pelo amor. A vida deveria ser sempre assim. Não consumista como pode ter parecido, mas apaixonada pelo que de melhor o homem faz quando ama e é generoso: arte, manifestada em muitas formas. Até na comida.

Ah! O terceiro presente. Uma entrada para assistir “Vestido de Noiva”, do Nelson Rodrigues, dirigido pelo Gabriel Vilela, dia 12 de setembro no Guairão. Presente que é também esperança. De um bom teatro.

Encerro este post com uma frase muito apropriada, dita por um personagem de “A Ilha da Morte”:

 

“A felicidade é como o cinema. Feita de pedacinhos.”

 

Bonitinho, né? Até.

 



Escrito por Edson Bueno às 01h51
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COMO EU DISSE...

Ah, como é boa a vida de artista! Eu não disse que a estreia de “Uma História de Pouco Amor” tinha sido uma festa? Com direito a coquetel e muito confete? Olha a prova. A felicidade estampada na cara do autor e do diretor. E quantas vezes se pode ver um diretor e um autor agarrados com sorrisos simpaticíssimos? Parece sorriso amarelo, mas não é. É imagem pra ninguém botar defeito. Alguém já disse que autor bom é autor morto, mas isso é uma visão de diretor. Será que o Moacir desejou isso de mim alguma vez? E se Nelson Rodrigues escreveu aos diretores pedindo que “fossem burros” e que não bancassem os inteligentes com a obra alheia, eu, na minha humilde curitibanice, agradeço ao Moacir Chaves por ter sido inteligente com a minha. Deu samba... melhor dizendo, deu blues. E do melhor! Que o diga o Wadeco!!!

 

Ah! A foto é (eu acho!) do Daniel Sorrentino.



Escrito por Edson Bueno às 03h28
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A MADRUGADA FRIA QUE É EXISTIR

 

Não sei como acontece para o público a percepção de “Árvores Abatidas ou para Luis Melo”, de Thomas Bernhard, dirigido pelo Marcos Damaceno e interpretado pela Rosana Stavis. Não sei. Deveria prostrar-me todos os dias diante do teatro e perguntar, um a um, aos que assistiram, sobre o que acharam, o que compreenderam, quais idéias e percepções absorveram do espetáculo e principalmente, de sua dramaturgia. Tiraria daí grandes ensinamentos para o meu teatro e a minha vida, com certeza. E digo isso porque não há o que dizer sobre a interpretação da Rosana. Talvez mais à frente eu deite minhas impressões estarrecidas de sua presença no palco, mas de cara, dá pra dizer que ela se insere entre as mais completas, entre TODAS as atrizes que já fizeram monólogos em palcos brasileiros. E fim de conversa. Mas e o espetáculo? Curvar-se diante do cenário, da iluminação e da música ao vivo de Gilson Fukushima, que dão a ele dimensão do mais alto nível artístico, é chover no molhado. Então está bom assim. Mas, o que dizer da dramaturgia e de sua encenação? Eu, que não sou público, que sou artista de teatro? Muito se falou (bem e mal) desse “Àrvores Abatidas...”. Das referências à personalidades do teatro curitibano - e, imagino, que só por milagre eu também não tenha sido “homenageado” pela agudez venenosa do texto do Damaceno -, até a profunda reflexão sobre a arte e seus suspeitosos satélites. Foi considerado um dos melhores espetáculos do Festival de Teatro em Curitiba (e disto não tenho a menor dúvida!), mas também chamada de “exemplo assustador” e “ataque grosseiro”, pelo respeitado Nelson de Sá, da Folha de São Paulo, que ainda completou com “... parecem rancores, mal humor, mesquinharia seletiva”. Hummm!!! Sei lá. É bom conferir pra compreender que não é nada disso. E nem vou relativizar a opinião. Não é mesmo, nada disso! É, digamos assim, uma frigideira sobre fogo quentíssimo, fritando uma criatura que frita todo mundo. É, digamos assim, um suicídio público, descaradamente assumido. Porque ao mesmo tempo em que a personagem expõe com impressionante inteligência, humor e virulência, as nossas piores mazelas sociais e nosso comprometimento (falo nosso porque sou um artista!) com a opinião alheia, nossa hipocrisia crônica e nosso fascínio pela bajulação fácil, ela, enquanto personagem/artista se expõe, pateticamente, porque como todos os seres humanos, é algoz e vítima das próprias palavras, opiniões e fascínios. Seria um espetáculo (porque fala dos artistas) sobre a vaidade. E não é vaidade o pecado preferido do diabo porque é o que leva mais gente para o inferno? Não é, por exemplo, um exercício de vaidade subir ao palco para uma performance individual acompanhada por um violino virtuoso? E derramar seus dotes histriônicos e seu talento incomensurável? Ou, ao contrário, é generosidade artística? Onde termina um e começa o outro? Expor e expor-se é tarefa difícil corajosa e matreira. “Árvores Abatidas ou para Luis Melo” se propõe a isso. E o faz com grande propriedade. Ri muito, me diverti com o espelho e com o outro lado do espelho, inclusive quebrado. Penso que os nomes curitibanos ali citados, embora pareçam citações pessoais, são didáticas, e ainda bem que não fui incluído entre elas, mas se tivesse sido levaria na esportiva e daria mais risadas ainda porque também santo não sou, nem nunca fui. Graças a Deus! Enfim, somos todos artistas, tenho certeza, e como vivemos em um mundo cruel e torto, estamos passíveis de terríveis pecados, os mesmos que negamos, criticamos e apontamos em nossas artes. Somos humanos e queríamos ser perfeitos, como se existisse um Deus perfeito. Aliás, existe sim, o deus da opinião! Como a personagem vivida pela Rosana, atravessamos nossa existência entre tapas e beijos, buscando a beleza em meio à feiúra, experimentando a madrugada fria que é existir e não há palavras, sejam minhas, do Damaceno, do Thomas Bernhard, da Rosana, do Nelson de Sá, do Strindberg, do Shakespeare, do Ibsen, do caralho a quatro, que consigam definir esta experiência degenerada e cheia de goso. Vale a tentativa. O espetáculo “Árvores Abatidas” é uma das melhores e, disparado, um dos mais incríveis espetáculos de teatro que tive o prazer de assistir em Viena, digo Curitiba. E a Rosana Stavis não interpreta, ela transita loucamente na quarta dimensão. E não digo mais porque nem sei mais o que dizer. Então, fico por aqui, pasmo e apaixonado, tonto e envergonhado, louco e embriagado. Amanhã é outro dia, tenho tanta arte para fazer, tanta gente para convencer, tanta opinião para dar, tanta crítica e tanto elogio para receber. Tudo por minha própria conta porque tenho a ilusão de que sou dono do meu próprio nariz, embora o Thomas Bernhard insista em dizer que não!



Escrito por Edson Bueno às 21h57
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TODOS OS TRUQUES.

 

Sam Raimi está de volta depois de dois filmes excepcionais com o Homem Aranha e um terceiro abaixo da crítica. Volta ao seu universo primário, o cinema de terror. E com “Drag Me To Hell” (um excelente título!) ele faz o seu filme mais fraco. Uma pena ter que dizer isto, mas é a mais pura verdade. E olha que eu sou fã de carteirinha do cara e o filmeco até que começa bem com uma certa ingenuidade típica das narrativas clássicas. Mas com a sua seqüência, muito bem orquestrada, de clichês e sustos, sem a menor possibilidade de um suspensezinho redentor, Sam Raimi deixa uma pergunta sem resposta: Para onde vai o gênero terror? Se um dos melhores, mais criativos e divertidos diretores do cinema pipoca não consegue responder, quem conseguirá? “Arraste-me Para o Inferno” é cheio da bossa, tem efeitos especiais quase artesanais (o que é bom!), uma mocinha com cara de ingênua, uma monstra assustadora (será?) e muita geleca, mas não dá no coro. Qualquer fanzeco de filme de terror adivinha tudo o que vai acontecer porque é tudo muito previsível. Poderia dizer que o velho Sam tenta equilibrar humor com horror, mas sabe o quê? Nem uma boa risada ele consegue arrancar. Depois de quase duas horas de gritos e socos de câmera e edição você se pergunta: mas já acabou? E o filme?



Escrito por Edson Bueno às 02h21
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